Há 36km do centro de
Pentecoste, município cearense, moradores da comunidade rural de Boa Vista
realizaram, às 19h30 de sábado (18), uma roda de conversa sobre a importância do
trabalho comunitário. A Escola Popular Cooperativa (EPC) Boa Vista abriga, até
o dia 31, a exposição itinerante “PRECE 20 anos”. Reunidos para a abertura da mostra na
comunidade, a equipe do projeto “Memorial do PRECE” e moradores da localidade compartilharam
histórias de transformações pessoais.
Roda de conversa na abertura da exposição "PRECE 20 anos"
Para o agricultor Audir
da Silva, o PRECE representa recomeço, uma nova chance de estar próximo de sua
filha, Ana Raquel. Com 9 anos, Raquel viu os pais se separarem e o convívio com
o pai interrompido. Mãe e filha viviam em Palmácia, no maciço de Baturité, e Audir, em Boa Vista. Após
concluir o ensino médio, persistia a vontade de continuar a estudar, mas as
alternativas pareciam poucas, até surgir o chamado do pai: “Raquel, se tua mãe
aceitar tu ir lá pra casa, lá tem o PRECE, lá eu conheço muito gente que já
passou por lá e o PRECE dá muito oportunidade pra quem quer estudar”. A mãe
aceitou e a menina foi. Ana Raquel cursa psicologia e todo fim de semana está
na casa do pai.“Tem
gente que não conhece o PRECE, se conhecesse pra vir estudar, como a Raquel veio,
muita gente mudava de vida”, diz Audir entre sorrisos.
A
caminho de Boa Vista
O único meio de chegar à
Boa Vista, para quem não está com automóvel, são os carros de feira, conhecidos
como paus-de-arara. No centro de Pentecoste, as ofertas são abundantes e cada veículo
tem destino certo. “Esse carro aqui é do Carlinhos, ele vai pra Boa Vista. Quem
é que vocês têm lá?”. Com o escambo de informações, logo se encontra o
transporte certo para o destino desejado.
A professora Rafaela com o filho Iure, Maria Luca e Hosana
“Vocês conhecem o
PRECE?”, a resposta afirmativa é dada em coro. Maria Luca, Hosana e Rafaela são
moradoras da comunidade de Tamarina, vizinha à Boa Vista. No início da prosa, Maria
e Hosana informam que não apenas conhecem o PRECE, mas que são mães de precistas.
Entre a parada para a compra de galinha e a troca de receita de doce de leite,
que não deve ser feito com leite coalhado, contam sobre os feitos dos filhos: “O
Valdey se formou em agronomia e voltou pra tentar cultivar uma plantação na
nossa terra. É pequena, mas é nosso pedaço de chão”, ao chegar à Tamarina, Maria
chama o filho e o apresenta aos perguntões que a acompanharam na viagem.
Despediram-se com a promessa de “tentar aparecer” na abertura da exposição. Elas
não foram.
Educação
Solidária e Cooperativa
Estudantes respondem: Por que sou precista?
À tarde, às 16h, os
estudantes e os facilitadores da EPC Boa Vista reuniram-se para discutir o que
os fazia precistas. Há dois meses, movida pelo exemplo da irmã Adriele, Andréia
chegou à EPC em busca de estudar. A mãe; o primo Leandro, precista e professor
de matemática da Escola de Educação Profissional de Pentecoste, e a irmã,
estudante de administração na UECE, a incentivaram a procurar o auxílio do
PRECE. Na EPC, Andréia encontrou histórias semelhantes a dela e uma forma nova
de estudar. “É isso que me leva a continuar estudando, porque não só sou eu que
concluí o ensino médio e aí passei um tempo parada e depois disse que quer voltar
a estudar: o que é que vou fazer? Todo mundo dizia: Andréia vai pro PRECE! Todo
mundo que quer aprender vai pro PRECE”.
A
Exposição "PRECE: 20 anos de protagonismo, cooperação e
solidariedade" estará até 31 de julho na EPC Boa Vista, em Pentecoste.
Seu Zé Alfredo (agricultor de Boa Vista que ia estudar em Cipó) com a mãe, Maria Firmino
Na terça-feira, 30, por
volta das 7h, os estudantes Arineto, Marcirlanni e Laura chegavam à Escola
Estadual de Educação Profissional (EEEP) Alan Pinho Tabosa. Naquela manhã, a
rotina não seguiria o seu curso. Os três estudantes tinham, junto com outros
colegas, a tarefa de apresentarem o cotidiano vivenciado naquela escola nos
últimos 4 anos. Em 21 de junho de 2011, Pentecoste, município cearense,
inaugurava a sua primeira escola profissional, que tem em sua gestão uma
parceria entre a Secretaria de Educação do Ceará (SEDUC) e a Universidade
Federal do Ceará (UFC).
Maurício Holanda, Secretário da Educação do Ceará, e o reitor Henry Campos acompanham à apresentação dos estudantes
O Secretário da
Educação do Ceará, Maurício Holanda Maia, o reitor da UFC, Henry Campos e suas
comitivas visitaram as dependências da escola, onde, nas salas de aulas, foram
apresentados à metodologia, empregada para o ensino e aprendizagem, e aos
projetos desenvolvidos pelos docentes e os estudantes. Divididos em grupos, os
estudantes falaram sobre o cotidiano das aulas, nas quais, agrupados em
“células de estudos”, realizam atividades orientadas pela metodologia da
Aprendizagem Cooperativa (A.C.), empregada pelos docentes.
A estudante Marcirlanni Pontes (primeira à esquerda) apresenta, com colegas, a metodologia
Questionados sobre a experiência
com a A.C., os estudantes contaram as suas vivências com a metodologia dentro
e fora da sala de aula. “Simplesmente falamos a nossa vivência, o nosso
dia-a-dia, o que, todos os dias, acontece”, esclarece Marcirlanni Pontes, 16,
estudante do 3º ano acadêmico. Moradora de Jucá, zona rural do município, a
estudante relaciona a sua formação escolar com a sua participação em espaços de
mobilização da comunidade: “Lá, na nossa comunidade, às vezes, reunimos todo
mundo para discutir algum problema, principalmente agora com a falta d’água, e
eu sou uma das que mais fala. A escola ajudou no meu desenvolvimento”, conta
satisfeita ao associar a autonomia desenvolvida com o auxílio das práticas da
escola com a sua atuação na localidade onde vive.
O estudante Arineto
Costa, do 3º ano de informática, contou sobre como conheceu a A. C. antes de
ser estudante da escola:
A
Aprendizagem Cooperativa (A.C.), o PRECE e a UFC
Utilizada como
metodologia da EEEP de Pentecoste, a A. C. foi elaborada a partir da
experiência vivenciada pelo Programa de Educação em Células Cooperativas
(PRECE), criado em 1994, em Cipó, comunidade rural de Pentecoste. Sete
estudantes, em situação escolar irregular, foram viver de forma comunitária em
uma casa de fazer farinha desativada, com o intuito de estudarem para
ingressarem em uma universidade pública. Empiricamente, de acordo com as
dificuldades encontradas na rotina de estudos, desenvolveram um método baseado
no auxílio mútuo, na atitude cooperativa e solidária. Com o ingresso
progressivo desses estudantes na UFC, a metodologia chegou à universidade.
No espaço acadêmico
formal, foram reconhecidas semelhanças do método dos estudantes de Cipó com a
metodologia desenvolvida pelos irmãos David W. e Roger T. Johnson. A união
entre a prática cearense e a teoria dos irmãos Johnson possibilitou a
elaboração do método empregado pela SEDUC e a UFC na EEEP Alan Pinho Tabosa,
nas turmas de Agroindústria, Informática, Aquicultura e Acadêmica.
Projetos desenvolvidos
pela escola
Fora da sala de aula,
os estudantes participam de projetos que auxiliam o progresso do aprendizado e
a prática cooperativa. Laura Sales, 17, estudante do 3º ano acadêmico,
compartilhou a sua experiência com o projeto “Revisores Solidários”, no qual
estuda atualidades e os critérios usados na correção da redação do ENEM. Os
participantes do projeto auxiliam no processo de correção dos textos de
colegas. A prática permite aos estudantes colaborarem com o projeto “Letras
Solidárias”, que constrói uma rede de revisores espalhados pelo mundo. No
próximo semestre o Revisores Solidários, sob orientação da professora Catarina
Matos, irá ser aplicado nas escolas Etelvina Gomes Bezerra e Tabelião José
Ribeiro Guimarães. Para Laura, a busca por uma educação de qualidade deve
ultrapassar os murros da escola. “Ver alguém pedindo ajuda e poder colaborar é
muito importante para a gente”, explica a estudante.
Laura Sales conta sobre a sua experiência com o projeto Revisores Solidários
Ao lado de projetos
como o “Promotores de Leitura”, que estimula a leitura e a troca de livros
entre os estudantes, e o “Produção textual básica e atualidades”, que discute
atualidades para a produção de textos dissertativos, a escola desenvolve ações
comunitárias em parceria com o PRECE. Os núcleos do PRECE são as Escolas
Populares Cooperativas (EPCs). A EPC Pentecoste, em parceria com a escola
profissional, desenvolve o projeto Estudante Cooperativo I e III. O primeiro é
destinado a crianças do ensino fundamental I, o último a estudantes do 8º e 9º
ano. O Estudante Cooperativo II está planejado para atender crianças do 5º e 6º
ano, em breve. Os estudantes Letícia Galvão e Willian Araújo, facilitadores do
projeto, apresentaram às comitivas o Walysson e o João Vitor, que explicaram
sobre o Projeto:
Curso de Liderança
Cooperativa e Solidária
Após conhecer a
metodologia e os projetos desenvolvidos pela escola, as comitivas participaram da
cerimônia de entrega de certificados do curso de Liderança Cooperativa e
Solidária. Os alunos participam das aulas organizados em células de estudos. Em
uma turma com 45 alunos, são 15 células, cada uma com três estudantes divididos
com funções específicas que se alternam ao fim de cada ciclo de ensino
(semestre). Um desses alunos tem a função de facilitar a aplicação das
atividades, um auxiliar direto do professor, chamado de coordenador de célula.
Esse grupo funciona de acordo com as aplicações metodológicas da A.C., o que os
torna “células de estudo”, onde cada membro exerce uma função vital para o
êxito das tarefas, a falha de um compromete a meta coletiva, o que torna
necessária a ajuda mútua para o bom funcionamento da célula.
A psicóloga Laís Leite apresenta o curso de Liderança Cooperativa e Solidária
O curso de Liderança
Cooperativa e Solidária foi elaborado e aplicado neste semestre, com duração de
dois meses. Anteriormente, era aplicado um curso de formação de coordenadores
de células, com duração de uma semana. A psicóloga Laís Leite, responsável pela
oficina de comunicação não verbal (ou linguagem corporal) explica que a
metodologia é estruturada para naturalizar a prática da cooperação. A estrutura
leva ao desenvolvimento de competências subjetivas. Laís defende que há
melhores rendimentos acadêmicos quando a metodologia atrela o desenvolvimento
de clima emocional positivo à preocupação com o desenvolvimento cognitivo. Essa
metodologia promoveria o amadurecimento de competências sociais. “Resultados
estatísticos mostram que desenvolver uma [competência] ajuda a desenvolver a
outra”, contextualiza Laís ao explicar o funcionamento da A. C..
O professor de
história, Magelo Braga, explica que o curso de Liderança Cooperativa e Solidária
é uma forma de auxiliar os alunos a compreenderem o funcionamento do método
usado em sala. Destinado a alunos que atuam como coordenadores de células, o
curso pretende estimular o questionamento e o aperfeiçoamento da prática. “No
próximo semestre, uma nova turma de coordenadores de células fará o curso, a
ideia é que a função e a formação sejam rotativas”, contextualiza Magelo.
Cerimônia
Na quadra, os
visitantes participaram da cerimônia de entrega de certificados do Curso de
Liderança Cooperativa e Solidária. Os estudantes realizaram apresentações
artísticas e receberam os certificados das mãos de amigos e professores. À mesa,
estavam presentes a prefeita Ivoneide Moura, políticos locais e professores de
escolas vizinhas e da CREDE. A Professora Maria Otília Nunes, amiga da EEEP Alan
Pinho Tabosa, estava na plateia junto aos estudantes. O reitor, Henry Campos, e
o vice-reitor Custódio Almeida estavam ao lado do Secretário de Educação,
Maurício Holanda Maia e de Eudoro Santana.
Grupo reunido após a cerimônia
A metodologia da escola
Alan Pinho é elaborada e aplicada em parceria com a UFC. O reitor, Henry Campos,
defende a troca de saberes entre os diferentes níveis de formação como
indispensável. “Aqui nós encontramos a práxis de todos os sete saberes da
educação, a educação libertadora de Paulo Freire, a pedagogia da autonomia... É
uma coisa belíssima, você vê as pessoas transformadas. São meninos adultos, com
histórias de vidas já transformadas e preocupados em transformar a história de
vida dos outros. Isso é extraordinário”, afirmou o reitor ao compartilhar suas
impressões.
Henry Campos, reitor da UFC
O Secretário da Educação destacou a importância da experiência da EEEP Alan Pinho Tabosa para o
aperfeiçoamento da qualidade educacional:
A exposição itinerante "PRECE 20
anos" aportou, neste fim de semana, em Canafístula. Precistas de diversas
gerações compareceram a abertura da mostra. Na noite de sábado, 20, Noberto, um dos sete estudantes que iniciaram o PRECE, juntou-se aos novos estudantes em uma roda de conversa sobre o papel da Escola Popular Cooperativa (EPC) de Canafístula. Além
de rever as ações realizadas, a exposição deseja despertar a reflexão sobre as
ações atuais. Para Noberto, doutor em
química e professor da rede estadual de ensino, a pedagogia do PRECE é o exemplo.
O PRECE não é discurso, mas sentimento. As falas só se validam quando as ideias
estão enraizadas, o sentir e o pensar impulsionam o corpo à ação.
Montagem da Exposição
No domingo, 21, a EPC abriu à
comunidade as portas da exposição. Clésia Costa, irmã de Noberto, professora da
escola local, colaborou com a montagem da mostra. “É muito importante. Quando eu vi, achei que
não era. Achei que poderia ser um trabalho em vão, mas não é”, confessa a professora,
que percebe o Memorial do PRECE como uma forma de compartilhar as ações do
PRECE com as novas gerações. As histórias têm como missão motivar, defende
Genival Barros, estudante de Canafístula que chegou ao PRECE ainda em Cipó, em
1996. “Nossa história está aqui contada, mas, muitas histórias ainda poderão ser
contadas por outras pessoas”, hoje, agrônomo da Secretária de Agricultura de
Apuiarés, Genival acredita que o diferencial das histórias precistas é o
retorno às comunidades de origem, o importante é “buscar uma universidade
pública de qualidade para retornar e contribuir com a comunidade”.
Roda de conversa com a comunidade
Canafístula
Localidade rural de
Apuiarés, a 122 Km de Fortaleza, Canafístula tem a iniciativa comunitária entrelaçada à
história de sua constituição. Com ares de vilarejo, a sua ocupação data da segunda
metade do século XIX. Em dissertação
apresentada ao curso de Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade da
Universidade Estadual do Ceará (UECE), Meirejane Gomes, conta sobre as ações de
famílias da localidade para continuarem naquele canto do mundo. Encrustada no
sertão cearense, a comunidade nem sempre tem a natureza como aliada. O desafio
de subsistir ao clima tórrido despertou a necessidade de se organizar para se fazer notar perante o poder público.
Canafístula
Vizinha do município de
Pentecoste, Canafístula logo ouviu falar do que acontecia em Cipó, em 1994.
Noberto, um dos estudantes que vivia em uma casa de farinha desativada, era dali. O exemplo de
Noberto atraiu mais canafistulenses àquele local. 10 anos depois, em
2004, o PRECE chegou à Canafístula. Com orgulho, a localidade fala dos seus
letrados e dos doutores que encontraram naquelas areias um abrigo para os sonhos, com os quais fertilizaram as suas identidades. Todo canafistulense, de algum
modo, é precista.
A memória e a ação precista
Cláudio Bezerra, precista
O “PRECE não é só estudo, é vida”, lembra Cláudio
Bezerra que se identifica como agricultor, estudante e precista. Para Cláudio,
irmão de Noberto, o maior objetivo não deve ser a universidade, mas sim,
transformar-se, libertar-se da ignorância, e para isso é preciso está aberto ao
outro. Sem o outro não há o PRECE. “Eu sinto o PRECE meio distante. Hoje as
pessoas valorizam mais os bens materiais, as tecnologias do que o contato
físico, e isso não são apenas os jovens”, provoca Cláudio, que defende o contato,
as trocas, a ajuda mútua, a compaixão e a solidariedade como elementos constituidores
do PRECE. “A gente trabalha a vida, sai do papel e vai para a parte física, a
mentalidade. Eu mudei a minha forma de vida, a minha mentalidade”, acredita que
a exposição recorda não apenas as histórias, mas o motivo do PRECE existir. Esse projeto serve “para os veteranos acordarem,
porque estamos querendo esquecer o PRECE atuante, do contato físico com as
pessoas”, continua a provocar.
Emanuele, Vitória e Samira participam do projeto Estudante Cooperativo
Estudantes do ensino fundamental da
escola Nely Ribeiro Luz, Emanuele, Vitória e Samira participam do Estudante
Cooperativo, projeto desenvolvido pela EPC Canafístula. A exposição foi o primeiro contato das três com a história
precista. Mônica Gomes, precista, estudante de Administração Pública e colaboradora da
EPC, diz que a mostra itinerante promovida pelo Projeto Memorial do PRECE, é um
meio de motivar essa turma nova. A universitária diz que as ações desenvolvidas pela EPC acontecem e os
novos estudantes participam sem reconhecerem o PRECE nessas atividades. Para
Emanuele, o Estudante Cooperativo a ajuda com o português e a matemática, mas, principalmente, é o espaço onde ela pode pintar e imaginar um mundo com as cores e as
formas que desejar. Samira fala que antes de chegar à EPC ouvia dizer que ali
era lugar de escrita e de arte. “E é isso mesmo, Samira?”, “É!”. O PRECE, para
as duas, é sinônimo de criação, é um se mover pela imaginação.
A Exposição "PRECE: 20 anos de protagonismo, cooperação
e solidariedade" ficará até 03 de julho na EPC Canafístula, em Apuiarés.
No dia 12 de junho, a exposição “PRECE -
20 anos de protagonismo, autonomia, cooperação e solidariedade” chega à EEEP
Alan Pinho Tabosa, em Pentecoste. Após um mês em Cipó, a mostra segue pelas EPCs
com o objetivo de percorrer, até o fim de 2015, todas as escolas populares
cooperativa. Durante dois meses, em Cipó, a comunidade local e a população
adjacente puderam relembrar os fatos que vivenciaram para a criação do PRECE e
conhecer novos aspectos dessa história.
Estudante durante a visita da Escola Nossa Senhora da Conceição
A EPC Cipó abrigou a
exposição e mobilizou as visitações. Adilson Sousa, estudante da EPC, conta que
mesmo as pessoas que já conheciam a história do PRECE, com a mostra, ampliaram
suas percepções sobre o movimento. A
EPC, localizada na antiga casa de farinha que hoje é sede do PRECE, passou a
ser frequentada por todos os moradores da localidade e não só por estudantes. A história do
PRECE também conta uma parte da história da comunidade. Frequentemente as
pessoas chegavam e reconheciam amigos, parentes ou a si mesmos nas fotos expostas.
A narrativa contada fala de algo constituído pelos moradores locais e que faz
parte da história íntima deles.
Adilson com estudantes e professores visitantes
Adilson
acredita que a mostra colabora não apenas com o compartilhamento das experiências
precistas, mas também, a reforçar o sentimento de pertencimento a essa
história. “É importante a história do PRECE ser contada, para os jovens e outas
pessoas verem como é importante ter um sonho e lutar pelo aquilo que é desejado”,
afirma o estudante.
A
EEEP Alan Pinho Tabosa abrigará a exposição nos dias 12 e 13, durante a II
Feira Cultural promovida pela escola. Em seguida, a partir do dia 21, a mostra
estará em Canafístula.
Equipe Memorial do PRECE: Fernando Falcão, Ana Maria Andrade e Magelo Braga
Em março, na EEEP Alan Pinho
Tabosa, o PRECE apresentou, à comunidade precista, o projeto de retomada do
Memorial do PRECE. Criado em 2012, o projeto busca resgatar e divulgar a
história do movimento. No início deste ano, a equipe da Professora Ana
Maria Andrade retomou as atividades interrompidas em 2013.
Para contar essa história
coletiva, construída durante 21 anos, é preciso narrar as inúmeras histórias
individuais que a compõe. Para isso, os depoimentos, anteriormente coletados,
serão organizados e sistematizados. Todas as informações colhidas serão
publicadas com o intuito de compartilhar memórias e inspirar novas iniciativas.
Wagner Gomes, precista
O Memorial foi apresentado
durante a Oficina de Elaboração de Projetos promovida pelo PRECE. No evento, os
estudantes presentes ouviram os relatos de vida de Wagner Gomes, precista e um
dos idealizadores da Adel, e de Airton Barreira, advogado popular que levou o
movimento Emaús ao bairro do Pirambu.
Airton Barreira, movimento Emaús
Ravena Luz, estudante de Direito
da UFC e militante da EPC Canafístula, nos diz que o projeto “é importante para
não perdermos a nossa essência, porque os novos precistas precisam compreender
que o que é feito hoje está diretamente ligado a uma ação iniciada há quase 21
anos”. Para Ravena, conhecer a própria história é fundamental para a formação
de referências, um sujeito que não se percebe como protagonista da própria
história torna-se impossibilitado de agir ativamente. As novas gerações
precistas pouco conhecem sobre as motivações iniciais do movimento, e para que
o PRECE continue a existir e atuar nas comunidades onde está, é imprescindível
que essa história seja conhecida e reivindicada, só assim ela poderá ser
atualizada.
A estudante Cristina Teixeira participou da abertura da exposição.
Em dezembro de 2014, durante o III Encontro de Aprendizagem Cooperativa, em Fortaleza, o PRECE iniciou a exposição “20 anos de Protagonismo, Cooperação e Solidariedade", neste ano, a mostra percorrerá as Escolas Populares Cooperativas (EPCs). No dia 12 de abril, a montagem chegou a Cipó, o início do caminho. Uma roda de conversa sobre a importância de compartilhar a história do movimento - com a participação da equipe do Memorial, precistas e moradores da comunidade - deu início a abertura da mostra.
Adilson, estudante da EPC Cipó.
Produzida como um
pequeno recorte dessa história, a exposição nos guia a partir da construção da
antiga casa de fazer farinha e nos mostra a história dos 7 primeiros estudantes
que levaram os livros aos campos de Pentecoste.
Uma pequena localidade rural do município cearense de Pentecoste, Cipó gerou, há 20 anos, um projeto educacional responsável por inserir centenas de pessoas no mundo das letras. O PRECE começou entre paredes erguidas para a produção de farinha, mas que produziram saber. A estiagem, com a ajuda da omissão do estado, tornou o chão improdutivo, o cultivo só foi possível por meio de livros, a palavra tornou-se semente. Histórias somam-se cotidianamente a história do PRECE, constrói-se uma memória coletiva, gregária e identitária.
Estudantes da EPC Cipó conferem a Exposição.
Essa memória deve ser compartilhada, conhecida e apropriada pelos novos estudantes que darão continuidade a ela. A EPC Cipó abrigará a
exposição até 1º de maio, quando a equipe do Memorial do PRECE levará a mostra
a outra EPC de Pentecoste.
Fazendo uma leitura do contexto sócio histórico de Cipó e comunidades vizinhas, pertencentes ao distrito de Matias, município de Pentecoste/CE, a partir da década de 80 até o advento do PRECE, em 94, evidencia-se alguns questionamentos: qual era a situação sócio educacional? Quem eram os protagonistas? Como as comunidades se organizavam? Neste ínterim, que fatos se concatenaram com o surgimento do PRECE?
Averiguando o contexto vivenciado pelas comunidades na década de 80, vamos identificar no aspecto social, Cipó e as demais, confundiam-se em termos de tranquilidade, algo que contribuía com o senso de bem-estar das pessoas. Sua gente vivia das atividades típicas do sertão: agricultura, pesca, cuidar de animais, pequenos comércios, tudo a partir da lógica da subsistência. As localidades eram desprovidas de serviços basilares, como por exemplo: atendimento a saúde, comunicação, energia elétrica, transporte eficiente, dentre outros descasos.
A conjuntura educacional, era outro dilema, para não dizer um caos, pois, o contexto era caracterizado pela alta taxa de analfabetismo e com poucas possibilidades de mudanças. Os estudos, no ambiente familiar, era algo despretensioso que não fazia parte nos sonhos dos jovens, nem de seus pais. Assim, a grande maioria dos estudantes ficavam “enganchados” no fundamental incompleto, aliás, as poucas escolas que haviam nas comunidades, em grande parte, eram de sala única, multisseriadas e ofereciam, no máximo, até a 4ª série. Os poucos que resistiam, faziam o ensino médio, destes, um ou outro conseguia chegar à graduação que era algo raríssimo.
Escola Municipal na comunidade de Várzea Comprida, Pentecoste/CE
O nível de organização das comunidades era outro caso a parte, na qual faltavam os elementos básicos de organização institucional, inclusive, muitas associações comunitárias da região, na época, funcionavam alicerçadas na vontade de fazer acontecer de uns poucos, contudo, muitas delas eram destituídas de legalidade jurídica. Os associados não imaginavam a força que tinham e nem os líderes sabiam como encarar isso, eram poucas, as pessoas que assumiam o papel de liderança dentro das comunidades. Diante disso, em meados dos anos 80, começa a acontecer uma mudança no modus operandi dentro das comunidades, identificado nas associações, a partir de iniciativas mais arrojadas, de caráter mais interativo, reivindicatório e mobilizador. O novo momento percebido na região, em especial, Cipó e comunidades próximas, tinha à frente o jovem líder Adriano Sergio Andrade, um obstinado e assíduo batalhador que nasceu e cresceu na região. Adriano, dentre alguns feitos, conseguiu instituir, uma das mais organizadas associações na época que foi a Associação de Moradores e Pequenos Agricultores Rurais das Comunidades Capivara e Cipó (ACOMPPARCC), onde implementou uma série de projetos significativos e estratégicos para a região.
Adriano Andrade na inauguração da casa de farinha
A ACOMPPARCC, na liderança de Adriano, conseguiu diversos benefícios como: distribuição de filtros, apoio aos produtores, inclusive, foi neste período que de maneira organizada conseguiu recursos para manter creches, algo, que beneficiou centenas de crianças filhos dos agricultores. Nesse período, precisamente, em 1991, o jovem líder empenhou-se na aquisição de uma casa de farinha, junto ao estado, através da Secretaria de Indústria e Comércio, alcançado depois de muita luta. Ressalto a alegria da conquista, inaugurada em novembro de 1991, com muita celebração, tendo a participação da população, políticos locais e da primeira dama do estado da época Patrícia Saboya.
Patrícia Saboya na inauguração da casa de farinha, Cipó, Pentecoste/CE
Quis o destino que nos anos subsequentes, a cultura da mandioca tivesse uma queda significativa em sua produção, um fato, que deixou a casa de farinha praticamente desativada. Nessa condição, o espaço foi utilizado para realização do curso de datilografia, tendo a participação de dezenas de jovens. Na sequência, no ano de 1994, deixou de vez a condição de subutilizada, quando foi iniciado o PRECE (ainda com o nome Projeto Coração de Estudante), ocupada pelos 7 pioneiros do movimento e assim, sucessivamente com a adesão de outros estudantes da região.
Os irmãos Adriano e Manoel Andrade
Outro fato, que se percebe é que dentre as muitas iniciativas e ações, junto às comunidades é que Adriano sempre buscou trabalhar em parceria com seu irmão Manoel Andrade, havia por parte dos irmãos, um incentivo mútuo em prol do trabalho comunitário. A exemplo, cito os memoráveis campeonatos de futebol no início dos anos 90, que contava com a adesão de toda a região, algo contagiante, que dentre os pontos positivos do evento estava a mensagem, que ia além da festa desportiva, difundida na interação social e na promoção da paz. Outra iniciativa importante deles foi o apoio concedido aos professores de Pentecoste, na defesa dos interesses da categoria. Logo se percebe a contribuição deles nas temáticas educacionais do município.
Movimento em Defesa da Escola Pública em 2008 - Pentecoste/CE
Mediante a tudo, não tem como não ressaltar as mudanças originadas nesse período, década de 80 e 90, com ênfase nas mobilizações e no aperfeiçoamento do senso de liderança, salutar para conquistas importantes, em especial, no âmbito da educação. Na linha do tempo, vamos constatar que as ações implementadas naquele período, foram caracterizadas por líderes mais hábeis, resolutos, inquietos com a situação vigente que contribuiu com a configuração de um novo momento, na práxis organizacional das comunidades. Foi na junção dos fatos que surgiu uma empreitada social, que mais tarde desaguaria no advento do Prece, em 1994. Hoje, essa gene de inquietude e ações de contribuição social contínua, salta aos olhos, retratado nas transformações significantes. As associações comunitárias ganharam legitimidade jurídica, é comum gente de origem popular graduado, os protagonistas já se multiplicaram, legitimado nas ações de contribuição social. Portanto, ao olhar para aquela região, acreditamos que essa realidade persistirá por muito tempo, comprometida com o senso cívico, sustentado na vitalidade da cooperação e na solidariedade.
O Memorial do PRECE foi criado em 2010 com o o objetivo de resgatar, conservar e difundir a história do PRECE. O projeto tem o apoio da BrazilFoundation.